Monstros

TITULO ORIGINAL: Freaks PRODUÇÃO: EUA
ANO: 1932
DIREÇÃO: Tod Browning
ROTEIRO: Mahatma Kane Jeeves
FOTOGRAFIA: Milton Krasner
MÚSICA: -
ELENCO: W.C. Fields – Cora Witherspoon – Richard Purcell
DURAÇÃO: 74 min

 
SINOPSE: O filme começa com um apresentador de circo prevenindo o público: “Vocês verão monstros de verdade, que vivem e respiram como a gente…”. Cleópatra, uma bela trapezista, é amada pelo anão Hans. Ao saber da fortuna que Hans herdou, ela e o amante Hércules, arquitetam um plano para se apossarem da herança. Fingindo corresponder ao seu amor, casa-se com Hans e tenta envenená-lo. Mas, seu plano criminoso é descoberto pelos “monstros” , cuja vingança sera implacável. Monstros é um dos filmes mais malditos e polêmicos de toda história do cinema. Abrange todo o espectro do horror, de filme de arte e documentário. Incompreendido no seu lançamento, mutilado, censurado, proibido em alguns países, comprometeu gravemente a carreira do seu diretor, o também insólito Tod Browning (diretor de Drácula). A realização deste filme só foi possível graças ao apoio dado pelo produtor Irving Thalberg. Foi desta forma, que a MGM aceitou lançar nas telas, os verdadeiros fenômenos circenses, aberrações estas, que não eram apenas ornamentos, mas sim, o tema principal da obra. Um mergulho no âmago do eu doentio, que nos ensina que a mais terrível desumanidade que poderíamos conhecer, está dentro de cada um. Monstros acabou se tornando meitico e cultuado. Agora pela primeira vez no Brasil e em edição especial, o filme mais assustador e comovente do cinema de horror de todos os tempos.
 

INFORMAÇÕES DO DVD
LEGENDAS: português – inglês - espanhol
ÁUDIO: 2.0 – inglês
FORMATO: 4:3 – fullscreen – PB - NTSC
REGIÃO: livre
BÔNUS: Biografia de Tod Browning – Galeria de Fotos Proibidas – Análise do filme pelo crítico e historiador Luiz Nazario – O Circo de Barnum – A Coleção Jenkins – Eisenmann e a Fotografia – A Atração Circense como Estigma – Aberrações Humanas – Final Alternativo e Censurado.

 

MONSTROS

Em 1932, o terror estava em alta no mundo, com o ditador Adolf Hitler aproximando-se do poder na Alemanha e levando centenas de artistas de origem judaica ou convicção marxista a fugirem em direção à vida e à liberdade nos países ainda não dominados pela onda fascista. Em Hollywood, onde muitos artistas e intelectuais judeus e / ou simpatizantes do comunismo encontraram um refúgio seguro, o gênero terror começava a ganhar força, tanto pelo aporte das técnicas expressionistas de iluminação e criação de atmosferas sombrias, quanto pelo clima real de Depressão que acabava de tomar conta do público norte-americano, com a queda da Bolsa de Nova York em 1929 gerando milhares de desempregados e suicídios em massa de empresários falidos da noite para o dia.

Nos estúdios da Universal, que se estava especializando na fabricação de “monstros cinematográficos”, o diretor Tod Browning já tinha realizado uma série de fitas de mistério e horror, incluindo o primeiro Drácula (Dracula, 1931) do cinema, excluído o Nosferatu (idem, 1922), de Friedrich Murnau, que não tendo pago à família de Bram Stocker os direitos autorais para a adaptação do romance, rebatizou seu vampiro de conde Orloff. No papel do conde Drácula, o ator húngaro Bela Lugosi exercitava técnicas de hipnose com dedos sedutores e um par de olhos seriamente esbugalhados que um foco de luz direcionado ressaltava ainda mais. Não conseguia, contudo, assustar tanto quanto o conde Orloff, cuja máscara de horror permanece até hoje insuperada, gerando a lenda de que o ator Max von Schreck era um vampiro [lenda encenada com foros de realidade em A sombra do vampiro (Shadow of the Vampire, 2000), de E. Elias Merhige].

Em meio a tantas produções de sucesso com monstros sobrenaturais, a MGM começava a ficar aflita: ela agora precisava lançar um filme de horror que superasse tudo o que estava sendo criado nesse gênero pelos estúdios concorrentes. Para isso, o produtor Irving Thalberg contratou o experiente diretor Tod Browning, e recorreu a um expediente que poderíamos qualificar de sensacionalista: o roteiro desse novo filme de horror deveria ser muito forte, mas ele se tornaria mais forte ainda se fosse vivido por “monstros” de verdade, realizando a lenda criada em torno de Max von Schreck numa fórmula nunca antes experimentada no cinema.

A história de Monstros baseou-se na novela Spurs , de Tod Robbins, passada no meio circense. A garbosa trapezista Cleopatra (Olga Baclanova) seduz até o casamento o germânico anãozinho Hans ( Harry Earles) para o desgosto de sua prometida Frieda (Daisy Earles), uma anãzinha que ama seu colega de circo pelo que ele é e não pela fortuna que herdou. Já a pérfida sedutora envenena aos poucos o ingênuo mulherengo para arrancar-lhe o dinheiro e depois casar-se novamente com seu verdadeiro amante, Hercules (Henry Victor), um robusto domador cubano . O corrupto casal “normal” de amantes encontra-se às escondidas no circo repleto de “monstros”, que aí vivem numa comunidade bem integrada. Os freaks contam com a simpatia de outro casal “normal” formado pelo palhaço Phroso (Wallace Ford) e a domadora Venus (Leyla Hyams), ex-namorada de Hercules, e com o carinho de Madame Tetrallini (Rose Dione), que os leva para tomar sol e os defende contra os proprietários do terreno que desejam expulsá-los: “Eles são todos filhos de Deus!”

Durante as bodas de Hans e Cleopatra, os freaks aceitam a introdução da noiva normal em seu círculo através de um ritual, fazendo passar uma taça de champanhe da qual todos têm de beber misturando suas salivas e gritando: “Uma de nós! Uma de nós!”. Contudo, a noiva só lhes tem horror, e os humilha beijando Hercules e não Hans, quebrando a taça que o anão Angeleno (Angelo Rossitto) leva de pé sobre a mesa até sua boca: ela abandona a festa gritando todo o nojo que sente daquelas “aberrações”. Os freaks começam, então, a suspeitar das intenções casamenteiras de Cleopatra. E quando Hans mostra sintomas de envenenamento, eles passam a vigiar as barracas de Cleopatra e de Hercules, seguindo os passos deles, descobrindo seus planos e preparando uma vingança brutal, desencadeada de maneira assustadora durante uma noite de tempestade.

Tod Browning contratou para o filme as atrações mais famosas do sideshow da época: o cativante casal de anões Daisy e Harry Earles; as siamesas Daisy e Violet Hilton; Johnny Eck, o Meio-garoto desprovido de pernas; Schlitze, a Cabeça de Alfinete; Josephine Joseph, Metade Homem Metade Mulher; Frances O'Connor, a Garota Tartaruga; Peter Robinson, o Esqueleto Vivo; Olga Roderick, a Mulher Barbada; Koo Koo e Elizabeth Green, as Garotas-Passarinho; Martha Morris, a Maravilha sem Braços que come e bebe usando os pés; Príncipe Randian, o Torso Vivo que enrola e fuma cigarros sem ter pernas nem braços; e as irmãs microcéfalas Elvira (Zip) e Jenny Lee (Pip) Snow, que inspirarão o cartunista Bill Griffith a criar seu personagem Zippy. Depois de monstros, devemos a Alfred Hitchcock outra rara aparição de freaks verdadeiros no cinema: num momento em que Hitler ordenava o extermínio na Alemanha de todos os deficientes físicos e mentais, o mestre do suspense fez o herói de O sabotador (Saboteur, 1942), que persegue um espião nazista e foge da polícia que o confunde com aquele, encontrar na caravana de um sideshow seu refúgio mais seguro.

Monstros era um filme perturbador em seu tempo, mesmo para a equipe de produção. Um a um, os atores inicialmente previstos para nele atuar - Myrna Loy (Cleopatra), Jean Harlow (Venus), Victor MacLaglen (Hercules) - desistiram depois de ler o roteiro. Quando os freaks chegaram ao estúdio da MGM – lar das maiores estrelas de Hollywood, alguns empregados encaminharam petições a Thalberg solicitando que ele pusesse fim à triste aventura. O jovem produtor teve que instalar um refeitório separado para os descontentes que alegavam não conseguir engolir nada nas refeições do set na presença do Príncipe Randian. Mal podemos imaginar como se comportava diante dos freaks a estrela Olga Baclanova, que com uma carreira entrada em decadência acabou aceitando o papel principal . O filme chocou até o público acostumado ao cinema de horror, tendo então seu final modificado por Thalberg num epílogo alternativo tipo happy ending destinado a tranqüilizar as platéias.

A imprensa foi impiedosa: “Todos os que consideram isso diversão mereciam ser enfiados no serviço de patologia de um hospital” (Harrison's Reports); “Não há desculpas para esse filme. Foi realizado por um espírito fraco e exige um estômago forte para se conseguir ver” (Kansas City Star); “Não deveria ser exibido nos cinemas, e sim no centro médico Richard Watts, Jr.” (New York Times); “É obviamente um trabalho pouco saudável e de modo geral desagradável... O senhor Browning consegue até transformar os freaks em seres mais desagradáveis do que normalmente são” (New York Herald Tribune)... O filme foi banido por 30 anos dos cinemas da Grã-Bretanha, e caiu no esquecimento em todo o mundo. Foi redescoberto apenas em 1962 durante uma retrospectiva no Festival de Cannes, quando o celebrado crítico Vincent Canby, do New York Times, incluiu-o na “talvez meia dúzia de grandes filmes de terror de todos os tempos”. Por seu lado, a contracultura encarregou-se de tornar Monstros um dos cult-movies do cinema, já que os freaks ideológicos identificavam-se com os freaks de Browning: David Bowie evocou-os numa canção; sessões malditas do filme lotaram os cinemas undergrounds de Paris a Nova York. Contudo, um freak ideológico sempre pode deixar de sê-lo: já os freaks de verdade não podem deixar de ser o que são.

Uma compreensão mais profunda da alma dos homens e mulheres malformados pode ser encontrada nas fotografias de Diane Arbus, que os retratou de frente e de maneira íntima, depois de uma longa convivência com cada modelo; em O homem elefante (The Elephant Man, 1980), de David Lynch, que transformou o caso real de John Merrick, um inglês do século XIX afetado por uma doença congênita, num dos filmes mais sensíveis à monstruosidade do cinema de horror; em Marcas do destino (Mask, 1985), de Peter Bogdanovitch, sobre um “homem-elefante” que vive sua adolescência entre freaks ideológicos; no romance Amor de monstro , de Katherine Dunn, também passado num sideshow e narrado por uma anãzinha cuja família monstruosa ela nos vai apresentando de maneira inusitada; ou em diversos filmes de Tim Burton, que geralmente humaniza seus freaks .

Monstros retrata os malformados até certo ponto com dignidade, e podemos perceber, pelos stills da produção, que Tod Browning os dirigiu com carinho, durante as filmagens, obtendo deles interpretações espontâneas e até entusiasmadas. Mas até certo ponto, porque, pelo fato mesmo de ser este um filme de terror, ele teve que convertê-los, no final, em personagens hediondos. Assim, ao se tornarem vingativos depois de descobrir a maldade dos planos de Hercules e Cleopatra, eles se revelam “verdadeiros monstros”, detendo insuspeitados poderes sobrenaturais e diabólicos, capazes de transformar a bela Cleopatra numa Mulher Pata e, na suposta versão original não conservada, o másculo Hercules num Castrado que cantava em falsete.

Pode-se dizer também com razão que, até certo ponto, os “verdadeiros monstros” do filme são os homens normais, representados por Cleopatra e Hercules. Eles constituem, de fato, um casal de monstros morais . Contudo, nem todos os normais do filme são perversos: o casal formado por Phroso e Venus redime a categoria. O equilíbrio também se faz através dos dois anões refinados Hans e Frieda que, nos epílogos preparados pelos produtores, terminam formando um casal quase normal, fisicamente ainda singular, mas já socialmente extrapolado da sufocante comunidade dos freaks.

Assim, não há no filme (e é isso o que o torna fascinante) uma inversão simples e uma separação radical entre monstros (de bom caráter) e normais (de mau caráter). Monstros morais o são tanto a bela Cleopatra e o másculo Hercules ( exageradamente normais porque sexualizados ao extremo) quanto aqueles freaks supostamente destinados à solidão ( exageradamente anormais porque aparentemente incapazes de manter uma vida sexual). São esses monstros extremos os que irão caçar Hercules e Cleopatra para transformá-los “num deles” à força: arrancando-lhes os sexos que os monstros supostamente assexuados secretamente invejavam. Não participam dessa “noite de Walpurgis” as irmãs siamesas que, durante o filme, encontram dois parceiros sexuais que se acomodam amigavelmente à situação numa espécie de swing com tonalidades homossexuais, nem a mulher barbada, que, numa prova de vida sexual ativa, dá à luz uma menina barbada, para a alegria de todo o circo.

Num dos finais alternativos, o casal normal formado por Phroso e Venus leva a magoada Frieda até a mansão de Hans, que se isolara do mundo sentindo-se um “monstro”, culpando-se pela monstrificação de Hercules e Cleopatra. A sós com Hans, Frieda o perdoa e tenta retirar dele a culpa pela castração dos trapaceiros: “Você queria apenas o vidro de veneno, foram os outros que fizeram aquilo”.

Tal fala deixa explícito para o público que eles são monstros assimiláveis , diferentes dos outros monstros , aqueles que não têm dinheiro nem vida sexual e que, portanto, entregam-se à maldade. Esse final feliz é uma paródia exótica e até divertida dos finais felizes dos casais normais nos filmes normais. Mas não corresponde à verdade dos freaks : como muitos mal-formados, o Príncipe Randian, o Torso Vivo, era casado e tinha filhos, levando uma vida de monstro perfeitamente normal...

Os freaks sobreviviam no mundo através dos empresários que exploravam, nos sideshows , tanto as aparências diversas que produziam sensação num público preconceituoso, quanto as habilidades extraordinárias por eles desenvolvidas no dia a dia - pela ausência de mãos, braços, pernas. Os sideshows foram proibidos na década de 1940, mas os freaks até hoje são requisitados - geralmente encarnando monstrinhos sob pesada maquilagem - no mundo do cinema, que se tornou o verdadeiro freak show de nosso tempo. Sem pretender qualquer reflexão sociológica, ainda que desperte inevitavelmente tais reflexões, Monstros é um filme fantástico de entretenimento hollywoodiano , um dos mais esquisitos de seu tempo, usando “monstros reais” para reforçar seu horror sobrenatural e inspirar pesadelos mais concretos.

© Texto de Luiz Nazario,
Professor de cinema da Escola de Belas Artes da UFMG

 


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