Os Filmes em Super 8 de Derek Jarman
Comentários sobre os curtas em super 8
Esse filme (The Art of Mirrors) foi o primeiro filme que fizemos em super 8 para o qual não se tem comparação. Os outros super 8 dos últimos meses estão mais próximos dos trabalhos em 16mm , considerando que é algo que só podia ser feito numa câmera super 8, com seus efeitos e seu ritmo próprios. Ao menos fizemos algo completamente novo.
In the Shadow of the Sun faz parte dessa série de filmes feitos em Londres chamada The Art of Mirrors, filmados em 1970 e 1974. Os filmes foram inicialmente feitos para serem projetados de 3 a 6 quadros por segundo. Na época, os filmes eram um suporte para o meu trabalho como pintor, e eram mostrados no meu estúdio apenas aos meus amigos que me ajudaram a fazê-lo, e gradualmente eles foram ficando conhecidos fora desse círculo restrito.
Como não podiam ser exibidos numa velocidade mais comum, tornou-se muito difícil para esses filmes alcançarem um público mais vasto, já que eu não tinha como reproduzí-los como um filme normal, e fazer uma cópia ficaria muito caro para mim. Com o passar do tempo, os negativos foram ficando bastante deteriorados. O filme foi salvo pela intervenção de Sylvia Andersen e o Fórum do Festival de Berlim que possibilitaram a cópia do filme para 16 mm.
Quando exibi esses filmes pela primeira vez, coloquei músicas de alguns cassetes que gravei com o Throbbing Gristle, já que os filmes eram mudos. Esses meus primeiros filmes não tinham nenhum enredo, eram desenvolvidos principalmente a partir de um linguagem muito pessoal de imagens. Eu os chamaria de filmes da “paixão”, um Apocalipse inglês que se iniciou numa viagem aos mágicos círculos de pedra de Avebury. É um lugar não muito distante de Stonehenge. Lá, usava a câmera como um pintor, para ver o quão longe podia chegar com um super 8.
Derek Jarman
Elegia do Tempo: A obra em Super 8 de Jarman
Vendo e revendo o material em super 8 de Derek Jarman, o que se sobressai é a solidificação de uma dimensão temporal vivida no improviso, mas definitivamente fruto dos estados de mente, da predisposição em encarar o mundo que Jarman quase sempre reprensentou na forma de mito. Imagens esparsas capturadas num instante infinito estão, por exemplo, em In the Shadow of the Sun, onde as figuras humanas se partem em refrações do fogo e do sol, em amarelo e laranja, tragadas pelos reflexos e pelas espirais ressonantes do som eletrônico do Throbbing Gristle, banda tema de TG: Psychic Rally in Heaven.
Bem diferente disso é a iconografia de Pirate Tape/Film, onde Burroughs é “ofuscado” durante uma passagem por Londres. Novamente a câmera de Jarman traz o imediatismo de um diário que se encontra de forma completa em Glitterbug, com uma estrutura mais complexa e variada. Até mais que Blue, uma elegia à chegada da morte em completa tranquilidade, Glitterbug é a verdadeira epígrafe do cinema de Jarman: vital, alegre, descontínuo, quase universal. Um cinema destinado a um público maior no exterior, conservando sua aura experimental e “amadora”, nas palavras de Stan Brakhage.
Foi correto que Jarman tenha terminado deixando seu material em super 8 como testamento uma reflexão existencial e até meta-fílmica: não é por acaso que a primeira imagem de Glitterbug seja ele filmando sua própria imagem num espelho, enquanto as cenas finais são um retorno ao passado, ao começo de sua aventura como cineasta nos estúdios de Bankside. Esse é o “último olhar” oferecido por Jarman ao mundo e conservado em sua pureza pelo suporte borrado (mas eterno) de seu amado super 8.
Bruno di Marino
Antologia em Super 8
Em 1972, Derek Jarman completou seu Journey to Avebury, inciado no ano anterior. O filme consiste numa série de cenas estáticas de Avebury, suas pedras antigas e árvores sob uma vista paronâmica. Ele contém uma música provençal como trilha sonora que funciona bem. Na mesma época, Jarman pintou as Séries de Avebury, de estilo geométrico e minimalista, e um bom exemplo do quanto seus filmes e pinturas vinham da mesma inspiração.
The Art of Mirrorscontém temas e imagens recorrentes em toda a obra de Jarman: a teatralidade do traje dos personagens, o uso do espelho para refletir a luz na lente da câmera produzindo instantes de abstração e uma inspiração, um tema ligado á fascinação com o universo de Jung. Nele, a cena em que amigos participam de um teatro gestual com Gerald Incandela usando uma máscara de plástico foi retrabalhada no balé Jubilee, com os subtextos políticos que não ficaram explícitos no filme.
In the Shadow of the Sunfoi infuenciado pelos Estudos Alquímicos e Sete Sermões aos Mortos, que traziam uma “chave para o imaginário”, segundo Jarman. A estrutura do filme é baseada nos estudo alquímicos de Jung. Esse filme foi uma tentativa de condensar suas ambições para o formato super 8. Ele foi filmado durante seis anos e tomou diferentes rumos durante esse tempo, com experiências em técnicas e imagens trabalhadas acerca de suas viagens às pedras antigas de Avebury.
Como em suas pinturas, as paisagens do filme contém imagens simbólicas desconectas, e quando há alguma, ela se dá pela forma completa do filme. O fogo está sempre lá, assim como a violência (um homem amarrado está deitado no chão), junto a uma mulher que veste uma sofisticada roupa erótica. As figuras nuas e mascaradas sugerem uma época clássica perdida na apocalíptica era da rainha Elizabeth II, junto com os valores de uma civilização que aceitava toda sexualidade. Essa imagem era também uma constante em seus filmes seguintes.
Michael O´Pray
TG: PSYCHIC RALLY IN HEAVEN E PIRATE TAPE/FILM
No filme TG: Psychic Rally in Heaven, o grupo denuncia as bases consumistas em que se constroem um grupo de rock. A trilha sonora começa com a confissão de um jovem americano acusado pelo estupro e assassinato de uma menina de dez anos. Com William Burroughs ao seu lado como guru, o cantor e compositor Genesis P. Orridge faz sua música com os instrumentos mais diversificados. A consagrada técnica do “cut-up” é o ponto inicial do trabalho, que vai se tornando cada vez mais radical pelos anos 1980, chegando ao fim da década com o foco nos instrumentos de controle social e resvalando no tema da conspiração.
O uso visual do material original foi se tornando tão mais radical que o trabalho da banda Throbbling Gristle praticamente sumiu do filme. Porém, o principal ainda ficou lá. Á parte uma imagem borrada e fraca do cantor, a performance deles se afunda em cores, com predominância do laranja e do vermelho, sobrepostas ao branco e ao preto numa velha versão do Inferno de Dante. Esse ocultamento do assunto principal está ali para tirar a atenção do grupo e lançá-la para a música tocada ali. Esse, afinal, não era uma vídeo promocional.
Em 1983, Genesis, um dos organizadores do Final Academy Event, convidou Burroughs para vir a Londres para uma série de encontros na Galeria B2, de David Dawson, no Ritzy Cinema, em Brixton, e na boate gay Heaven. Essas noites são o assunto principal de Pirate Tape/Film (WSB). Diferente das situações com amigos e personalidades, a observação de Jarman sobre Burroughs permanece distante: ele está no foco, mas também pode-se ver suas companhias. Jarman se aproximou do trabalho de Burroughs nos anos 1960, mesmo com o escritor não tendo publicado nada na Inglaterra e permanecendo desconhecido até 1962, quando a escritora Mary McCarthy o mencionou no Festival de Edimburgo como um dos mais interessantes autores da época nos EUA.
Gianmarco Del Re