O Circo de Barnum, o Museu da Moeda e Atrações Secundárias

“Senhoras e senhores! Daqui a sessenta minutos, daqui a apenas uma hora, estarão à venda bilhetes na carruagem vermelha, no outro lado do campo, à direita. Entretanto, a gerência vai entreter-vos com uma enorme variedade de monstruosidades, mistificações e divertimentos...”

“... Todas as aberrações e maravilhas foram fotografadas, pintadas e descritas tal e qual como apresentadas nesta longa série de ilustrações. Doze atuações monstruosas e anormalidades, bem vivas pelo preço de um só bilhete... Aproximem-se, aproximem-se!”

O nome que imediatamente nos vem à memória quando falamos em aberrações é o de Phineas T. Barnum. A partir de 1850, foi o principal organizador deste tipo de diversão. Os museus da moeda são obra sua. Barnum foi o primeiro a fazer uso sistemático de entusiasmo em massa, anunciando os seus entretenimentos de uma forma moderna. Na New York´s Bowery – na época um centro de atividades que funcionava dia e noite – Barnum era o rei. Não só organizava espetáculos itinerantes como transformou os museus populares num enorme sucesso, graças aos seus esforços.

O primeiro grande sucesso de Barnum foi Tom Thumb (Pequeno Polegar). Em vez de uma cabeça de macaco espetada num corpo de peixe e preservada num jarro, as pessoas podiam agora observar um ser real, que anda, divertindo-os com o que diz. Juntavam-se aos milhares para o ver.

O segundo anão a trazer sucesso a Barnum chama-se Leopold Kahn e nasceu em 1868. Kahn teve um enorme sucesso com o público sob o nome artístico de Almirante Dot. Em 1871, no Barnum and Coup´s Greatest Show on Earth, dançou, cantou e tocou instrumentos musicais, vestindo um uniforme miniatura da armada britânica. No final da sua carreira, ele e a sua mulher, que também era anã, puderam reformar-se.

Barnum apresentou as suas atrações perante vários tribunais europeus, incluindo o da rainha Vitória, de forma a assegurar a reputação dos seus espetáculos de aberrações. Gostava de se movimentar em círculos tão refinados como esse, mais do que qualquer outra coisa. Na sua autobiografia, este explorador de aberrações escreve, sem uma ponta de arrependimento:

“Eu preferia, pessoalmente, divertir-me de uma forma mais elevada, e assistia freqüentemente à ópera, concertos de luxo, palestras, entre outros.”

O final do século XIX trouxe o fim do sucesso de Barnum e os da sua espécie. A economia sofrera uma forte recessão e os museus da moeda e formas semelhantes de entretenimento perderam muita da sua popularidade. No entanto, o circo com o nome de Barnum sobreviveu até 1956. Outros continuaram o seu trabalho, ainda que as atuações se tivessem alterado e o interesse pelas aberrações tivesse diminuído. Porém, nunca desapareceu totalmente. Earl Jenkins, que fazia os truques mais estranhos e era um famoso artista até 1950, fez das aberrações o seu passatempo. Colecionou milhares de ilustrações, incluindo as magníficas fotografias de Eisenmann.


A Atração Circense como Estigma

Freaks (aberrações humanas) é uma palavra multifacetada, com um variado leque de significados, em especial no submundo norte-americano e numa cultura marcada pelo consumo de estupefacientes, onde se refere às pessoas que não se conformam com regras estabelecidas. Trata-se de um alargamento do seu significado original: pessoas extremamente extraordinárias ou estranhas, “deformadas” ou “monstruosas”, e cuja aparência física difere da das pessoas “normais”.

O filme MONSTROS (Freaks, 1932) lança alguma luz sobre o significado original da palavra. O clássico filme de terror realizado por Tod Browning traz as aberrações para as luzes da ribalta. Porém, o horrível elemento do terror é atenuado pela intimidade e carinho com que o filme foi feito. O cenário é um circo, com as aberrações como atração. A exibição deste tipo de pessoas, cujas deformidades físicas tocam a fronteira entre o que é humano e o que não é, foi durante muitos séculos uma forma de entretenimento popular de grande êxito, nos circos ou em espetáculos semelhantes.

Depois de setenta anos da estréia de MONSTROS, a aparência das aberrações ou de pessoas deformadas é ainda, de acordo com Leslie Fiedler, um tabu social. A sua verdadeira forma física permanece escondida. No seu livro Freaks, Myths, and Images of the Secret Self , publicado em 1978, Fiedler investiga as atitudes perante as aberrações ao longo dos séculos, fazendo referência ao folclore e à história médica, cultural e social. Analisa ainda a imagem de outras pessoas estranhas – hippies, heróis de HQ americana e cantores de rock, por exemplo – na cultura dos nossos dias, na qual alcançaram o respeito e importância.

Um das mais importantes conclusões de Fiedler diz respeito ao fato de as pessoas “normais” mudarem de opinião acerca do que é “normal” assim que entram em contato com as aberrações. A sua aparência na esfera “normal” dá origem a sentimento de medo e repugnância, em que o medo não é causado pelas aberrações em si, sendo sim parte integral da estrutura social. A distinção entre normalidade e anormalidade surge como parte de um processo em desenvolvimento. As várias manifestações históricas, sociais, éticas e físicas da realidade combinam-se para formar a nossa imagem do que são as aberrações.

Fiedler destaca o fato de que as aberrações também podem fazer com que aqueles que com elas contatam, tomem consciência da divindade e de estigmas (sinais físicos do êxtase religioso). No passado, o contato com as aberrações despertou um sentimento de admiração, que levou a sentimentos de solidariedade com o indivíduo deformado ou monstruoso. A obra de Fiedler expõe a estrutura psicológica do homem contemporâneo, que tenta atenuar o trauma interior coletivo. A marca deixada pela traumática experiência que é a deformação é reprimida no subconsciente. As aberrações reavivam estas marcas ou estigmas: o nível de consciência que as pessoas experimentam ao atravessar este trauma inconsciente satisfaz uma necessidade humana essencial. As aberrações obrigam-nos a tomar consciência das “cicatrizes sagradas” dentro de nós. Através delas podemos transcender os limites da normalidade e experimentar níveis mais profundos e os mistérios escondidos da vida. Hoje em dia, as pessoas fecham-se aos mecanismos que ativam os estigmas. O único elemento que ainda resta deste fenômeno cultural anteriormente bem visível, são os filmes antigos e as fotografias de aberrações. Estes são os testemunhos de efeitos chocantes do passado, para um aprofundar da consciência e necessidades emocionais em forma física. Ao ver estas fotos, sentimo-nos como se um exército de aberrações pudesse saltar de dentro de nós, como anjos. Por mais estranho que possam parecer, as aberrações são os nossos próprios seres interiores, escondidos sobre várias camadas de repressão. Escondidos por detrás destas fotografias estão os nossos próprios seres interiores. As aberrações são a prova dd que as paredes e os limites que tomamos como certos, são de fato, estruturas sem significado. Desta forma, poderemos tomar contato com uma nova realidade, como crianças explorando o mundo pela primeira vez.

Fiedler vê Freaks, Myths, and Images of the Secret Self como um tributo ao filme de Browning. MONSTROS, que foi a sua fonte de inspiração imediata para o seu livro.

O próprio Browning fez parte de um circo quando tinha dezesseis anos. A sua experiência como artista e acrobata teve nele uma influência decisiva. O seu interesse em toda a sua vida por espetáculos de feiras e o seu sangue de artista de circo são o tema e assunto do filme MONSTROS, no qual ele se atreve a pintar um retrato dos fenômenos bizarros que surgem de uma combinação de sonhos de criança com traumas infantis.

Toshiharu Ito, historiador de arte, Tama Academy of Art



 

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